A dor crônica é uma condição de saúde pública que, embora extremamente comum, muitas vezes permanece invisível. É uma experiência que vai além do desconforto físico, impactando a qualidade de vida, a capacidade de trabalho e as relações sociais. Estudos populacionais revelam um dado alarmante: a dor crônica afeta aproximadamente 40% dos adultos no Brasil. Reconhecendo a dimensão do problema, o Ministério da Saúde aprovou, em agosto de 2024, um novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para atualizar a abordagem dessa condição no Sistema Único de Saúde (SUS). Este artigo destaca os cinco pontos mais surpreendentes e impactantes deste novo protocolo, que promete mudar a forma como pacientes e profissionais de saúde encaram a dor.
Tratamento alternativo Porto Alegre
1. Mais Comum (e Cara) do que Você Imagina
O novo protocolo reforça que a dor crônica não é um problema isolado, mas uma questão de saúde de grande escala. A prevalência de dor crônica intensa atinge cerca de 10% da população adulta (definida como dor de intensidade 8 ou mais em uma escala de 10). Além disso, as dores musculoesqueléticas são o problema de saúde mais frequente entre brasileiros de 15 a 64 anos.
De forma contraintuitiva, o documento aponta que os custos econômicos e sociais associados à dor crônica podem superar os de condições amplamente reconhecidas como diabetes, cardiopatias e câncer. Para reforçar seu impacto severo, dados de 2019 mostram que a lombalgia e a cefaleia (dor de cabeça) foram, respectivamente, a sétima e a nona principais causas de anos de vida perdidos por morte ou incapacidade no país.
2. Dor Crônica é uma Doença, Não Apenas um Sintoma
Uma das mudanças de paradigma mais importantes do protocolo é a reclassificação da dor crônica — aquela que persiste por mais de três meses — como uma doença em si mesma. Ela deixa de ser vista apenas como um sintoma de uma lesão que não cicatrizou para ser entendida como uma condição com mecanismos fisiológicos próprios.
A definição oficial de dor adotada pelo documento ilustra essa complexidade:
Dor é uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada ou que lembra a sensação causada por uma lesão tecidual real ou potencial.
Essa nova visão expande o diagnóstico para além do exame físico. O protocolo orienta que os profissionais de saúde considerem determinantes sociais, como identidade de gênero, orientação sexual, etnia, questões laborais e iniquidades sociais e econômicas, como fatores que podem contribuir diretamente para o processo de adoecimento, exigindo um cuidado integral e contextualizado.
3. O Tratamento Vai Muito Além dos RemédiosO documento é claro ao afirmar que uma abordagem multimodal, combinando tratamentos medicamentosos e não medicamentosos, produz resultados muito mais significativos. A complexidade da dor exige uma estratégia igualmente complexa.
Considerando a complexidade do fenômeno álgico, um único tratamento não é suficiente para produzir todos esses efeitos.
O protocolo recomenda fortemente uma série de intervenções não medicamentosas que devem ser integradas ao plano de cuidado. Entre as principais, destacam-se:
• Programas educativos para encorajar o paciente a assumir um papel ativo no autocuidado.
• Prática regular de atividade física e exercícios terapêuticos, com a orientação expressa de evitar o repouso absoluto.
• Acupuntura, que demonstrou resultados positivos na redução da dor e melhora da qualidade de vida em até três meses.
• Agulhamento seco, para o tratamento de pontos-gatilho em dores miofasciais.
• Terapia manual, com técnicas de mobilização articular e de tecidos moles como opção em um contexto multimodal.
• Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), focada em modificar crenças e comportamentos disfuncionais relacionados à dor.
• Práticas Integrativas e Complementares (PICS), como meditação e ioga, que já estão disponíveis em diversos serviços do SUS.
Terapia coluna vertebral Porto Alegre
4. Surpresa: Medicamentos Comuns Ficaram de Fora
Em uma das mudanças mais contraintuitivas para o público e para a prática clínica diária, o novo protocolo se baseia em rigorosas avaliações de custo-efetividade da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) para não recomendar a inclusão de vários medicamentos amplamente utilizados. Isso significa que, com base nas evidências atuais de eficácia e segurança para essas condições, o SUS não os incluirá em suas diretrizes gerais.
A lista inclui:
• Diclofenaco (uso oral) para o tratamento da dor crônica musculoesquelética.
• Anti-inflamatórios não esteroides tópicos para dor crônica musculoesquelética ou por osteoartrite.
• Opioides fortes (fentanila, oxicodona e buprenorfina) para dor crônica não oncológica.
• Opioides fracos (codeína e tramadol) e morfina em baixa dose para dor crônica.
• Lidocaína para dor neuropática localizada.
• Pregabalina para o tratamento de dor neuropática e fibromialgia.
• Duloxetina para o tratamento da dor neuropática e da fibromialgia.
É fundamental esclarecer que essa decisão se refere à incorporação para o tratamento geral dessas condições no SUS. A escolha do tratamento continua sendo uma decisão individualizada, que deve ser tomada pelo profissional de saúde em conjunto com o paciente, considerando as particularidades de cada caso.
5. Seus Hábitos Diários Podem Estar Piorando a Dor
O protocolo também chama a atenção para fatores do dia a dia que podem perpetuar e agravar a dor crônica. A sobrecarga mecânica causada por má ergonomia no trabalho ou por permanecer longos períodos na mesma postura é um fator chave.
A qualidade do sono também é um pilar fundamental. O documento destaca que a posição ideal para dormir é de lado (decúbito lateral), sobre o lado contrário ao da dor, utilizando travesseiros adequados para o pescoço e o corpo.
Por fim, a relação intrínseca entre transtornos de humor, como depressão e ansiedade, e a dor é explicitamente reconhecida. Pensamentos catastróficos e o foco excessivo na dor podem piorar a sensação de incapacidade e dificultar o manejo da condição, criando um ciclo vicioso.
Conclusão: Um Novo Olhar Sobre a Dor e o Papel do Paciente
O novo PCDT da Dor Crônica representa uma mudança fundamental na forma como o Brasil encara essa condição, movendo o foco de uma busca, por vezes frustrante, pela "cura" (eliminação total da dor) para um objetivo mais realista e empoderador: o "manejo" eficaz. A abordagem passa a ser um processo colaborativo e multimodal, onde o paciente assume um papel central em seu próprio cuidado. O objetivo principal não é a eliminação total da dor, mas sua redução a níveis aceitáveis que permitam a recuperação da autonomia, da funcionalidade e, acima de tudo, da qualidade de vida.
Com essa nova abordagem focada no cuidado integral e no seu papel ativo, como você pode repensar a maneira como lida com sua própria dor crônica?


Comentários
Postar um comentário